Cemitério de Manaus vira sala de cinema para exibir documentário sobre santa popular assassinada em 1901

Na noite desta sexta-feira (15), o Cemitério São João Batista, na Zona Centro-Sul de Manaus, virou sala de cinema a céu aberto para a estreia de “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia”. Dirigido por Cleinaldo Marinho, o documentário revisita a história de Etelvina de Alencar — assassinada em 1901, aos 22 anos — e transformada ao longo das décadas em “Santa Etelvina” pela devoção popular. Entre túmulos e corredores do espaço histórico onde ela está sepultada, o público assistiu a um filme que mira além da biografia: propõe reflexão sobre memória, religião, construção de narrativas sociais e, sobretudo, feminicídio. Opinião do Maumau? Um acerto de direção também fora da tela: projetar no lugar da memória é fazer a cidade encarar o próprio espelho.

Uma estreia entre túmulos

A escolha do São João Batista foi tão simbólica quanto eficaz. O cemitério, que recebe fiéis o ano inteiro no túmulo de Etelvina, virou palco de uma conversa necessária. O silêncio habitual cedeu lugar a reações, trocas e aquele murmúrio que só o bom cinema provoca — inclusive quando a “sala” tem estrelas no teto. Segundo o diretor, a decisão de ocupar o espaço nasceu ainda na fase de pesquisa, quando o time entendeu que a memória da santa popular está entranhada no lugar. E aqui vai a minha: quando a obra encontra seu cenário natural, a experiência do público ganha uma camada que nenhuma pós-produção entrega.

Quem foi Etelvina

Etelvina de Alencar foi morta em 1901, vítima de um crime motivado por ciúmes que terminou também com a morte de outras quatro pessoas. Faltam registros formais, sobram versões — e, no vácuo do arquivo, a cidade construiu uma devoção que atravessou gerações. Hoje, o túmulo recebe flores, velas e pedidos de graça. Goste-se ou não do rótulo de “santa popular”, é impossível ignorar: há uma potência social quando a memória coletiva insiste em manter alguém vivo na conversa pública.

Cinema, memória e debate necessário

Cleinaldo Marinho não promete respostas prontas — e ainda bem. O filme quer provocar: como narramos nossas tragédias? O que a fé explica (ou não)? Como a sociedade transforma vítimas em símbolos, e símbolos em silêncio? Em tempos de urgência para enfrentar a violência contra a mulher, escolher a história de Etelvina como ponto de partida e o cemitério como sala me parece um gesto estético e político. Humor do Maumau, com respeito: sessão forte o bastante para fazer até fantasma ficar pensativo.

Como o filme foi feito

A produção levou dois anos e meio e nasce de uma pesquisa iniciada pelo diretor nos anos 1990. O documentário mistura depoimentos de devotos, documentos históricos e cenas dramatizadas, gravadas de forma espontânea, sempre no Dia de Finados — quando a equipe retornava ao cemitério e encontrava a memória em ação. A antiga Colônia Campos Salles foi recriada nas sequências ficcionais; hoje, a área corresponde ao bairro Santa Etelvina, na Zona Norte de Manaus. A atriz Rosana Neves interpreta Etelvina nas passagens dramatizadas, costurando presente e passado sem pieguice.

Repercussão e presença do público

Moradores, curiosos, artistas e devotos acompanharam a sessão, ocupando o espaço que ajudou a moldar a lenda. O turismólogo Silvio Alencar resumiu bem o efeito da estreia no cemitério: aproximou o público da história e, de quebra, atiçou a curiosidade de quem ainda não conhecia o caso. É a tal educação sentimental pela tela grande — quando a cidade entende que patrimônio também se vê, se ouve e se sente.

Cultura, fomento e próximos passos

“Etelvina – A Ressignificação da Tragédia” foi contemplado pelo Edital de Audiovisual da Lei Paulo Gustavo, por meio do Conselho Municipal de Cultura (Concultura), com recursos do Governo Federal. Para além do filme, há um recado aqui: quando políticas públicas de cultura encontram projetos enraizados no território, a engrenagem funciona. A equipe agora pretende inscrever a obra em festivais e ampliar sua circulação — tomara que circule bastante; é o tipo de título que cria debate onde ele mais faz falta.

Encerramento

Exibir um documentário sobre uma santa popular no lugar onde sua memória é cultuada é mais que um evento: é uma intervenção cívica. Manaus ganhou, numa noite, um cinema onde a cidade visita seus mortos para conversar sobre os vivos. E se o cinema é, no fim das contas, luz projetada sobre o escuro, aqui a metáfora encontrou sua casa. Que venham mais sessões assim — com cadeiras confortáveis se possível, mas, se for para reacender discussões urgentes, a gente topa até banco de mármore.

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