Espaço Augusta de Cinema e Café Fellini são alvo de despejo no Centro de SP: ‘Pior dia da minha vida’, diz dona

Espaço Augusta de Cinema e Café Fellini são alvo de despejo no Centro de SP: “Pior dia da minha vida”, diz dona

Reintegração surpresa no coração do Baixo Augusta

Uma reintegração de posse interrompeu, na quinta-feira (14), a rotina do anexo do Espaço Petrobras de Cinema e do tradicional Café Fellini, na Rua Augusta, no Centro de São Paulo. Oficiais de Justiça chegaram por volta do meio-dia com dois caminhões para retirar móveis e equipamentos. Quase tudo foi esvaziado, com exceção das duas salas de cinema: projetores, telões e as poltronas — recém-reformadas — ficaram no prédio, que foi trancado e deverá ser esvaziado depois por empresa especializada. Para quem acompanha a novela urbana do Baixo Augusta, foi um capítulo agridoce: a cidade que consagra a cultura na lei, mas a expulsa pelo batente.

“Estávamos tentando entrar com um recurso, mas não conseguimos porque a petição ainda não tinha sido publicada”, afirmou Patrícia Durães, fundadora do cinema, em operação no local desde 1995. Do lado do café, a dor veio com o cheiro de empanadas recém-assadas: “Eu estava abrindo o café, já tinha colocado as mesas no jardim e assado as empanadas e o pão de queijo quando eles chegaram”, relatou Sílvia, que comanda a casa há 32 anos e definiu a data como “o pior dia da minha vida”. Entre um caminhão e outro, móveis subiam a rampa enquanto a memória afetiva da Rua Augusta descia um lance de história.

O que está em jogo: prédio x função cultural

A ação foi movida pela incorporadora Rec Vila 15 Empreendimentos Imobiliários, que comprou o imóvel em 2022 com a intenção de erguer um prédio residencial no terreno. A demolição, porém, está travada. Em 2024, decisões judiciais suspenderam a autorização de derrubada ao cobrar garantias não apenas de uma “fachada ativa”, mas do cumprimento da função cultural do espaço — ou seja, cinema de rua não é só um letreiro bonito no térreo do edifício.

Além disso, em 2025, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio) enquadrou a área como ZEPEC – APC (Área de Preservação Cultural), instrumento que preserva o uso cultural do local. Na prática, mesmo que o prédio mude, a atividade precisa permanecer. A construtora, portanto, terá de entregar, no novo empreendimento, duas salas de cinema e espaço para o café. O impasse: a direção do Espaço Petrobras considera o projeto apresentado inadequado e afirma não ter conseguido dialogar com a empresa. Resultado: vão tentar impugnar judicialmente a própria reintegração para retomar o espaço antes de eventual demolição.

Linha do tempo: da venda ao vaivém jurídico

  • 2022: imóvel é vendido à Rec Vila 15, e a comunidade cinéfila se mobiliza. Um abaixo-assinado reúne mais de 50 mil assinaturas contra a demolição.
  • Fevereiro de 2023: a 10ª Vara de Fazenda Pública, sob o juiz Otavio Tokuda, proíbe a demolição e a construção de novo empreendimento comercial ou imobiliário onde funcionam o cinema e o café, mas autoriza a desocupação do local, condicionada à preservação das características arquitetônicas até decisão definitiva sobre tombamento.
  • Dezembro de 2024: o Conpresp autoriza a demolição com base em relatório do IAB-SP, exigindo relatórios periódicos das obras. Na sequência, a Justiça suspende a derrubada ao exigir a garantia de função cultural efetiva, não só formal.
  • Abril de 2025: o Conpresp reconhece a área como ZEPEC – APC, preservando o uso cultural do conjunto (duas salas e café).
  • Maio (14): começa a reintegração de posse; móveis e equipamentos do café são retirados; as salas permanecem fechadas à espera de remoção técnica.

Vozes da Augusta: cultura que não cabe no caminhão

A cena do despejo tem contornos quase cinematográficos: mesas no jardim, pão de queijo no forno e dois caminhões na porta. “Isso aqui é a minha vida, passo 15 horas por dia aqui há 32 anos”, disse Sílvia, dona do Fellini. Do lado do cinema, Patrícia Durães descreveu o susto jurídico — aquela velha sensação paulistana de que o prazo urbano corre mais rápido que o do Diário Oficial.

Para além do drama individual, a disputa toca uma avenida simbólica. A Rua Augusta — especialmente o trecho conhecido como Baixo Augusta — é um corredor cultural de São Paulo, margeando a Av. Paulista e descendo em direção ao Centro, território de cinemas de rua, teatros, bares e casas de show. Preservar “o uso” cultural, nesse contexto, é preservar a própria ecologia de uma rua que ferve de noite e insiste em ser cidade de dia. E aqui vai minha opinião: trocar um cinema de rua e um café de três décadas por um térreo envidraçado e vaga de SUV é como refilmar um clássico com roteiro de condomínio — pode até dar bilheteria, mas mata o espírito.

Do ponto de vista formal, a reintegração está ancorada na autorização judicial de desocupação (desde 2023), e os oficiais cumpriram a letra da lei. Do ponto de vista da política urbana, porém, há um mandamento claro: ZEPEC – APC e decisões judiciais recentes exigem garantia de função cultural. Isso impõe um dever de projeto à incorporadora e um dever de mediação ao poder público. Se a proposta apresentada não viabiliza o funcionamento real das salas e do café — não só um espaço cenográfico — a cidade deve reabrir a mesa de negociação. Minha aposta? Sem projeto tecnicamente validado e socialmente aceitável, o contencioso continua, e a Augusta perde tempo — quando deveria ganhar programação.

E agora?

A direção do Espaço Petrobras deve tentar impugnar a reintegração para reaver o imóvel antes de qualquer demolição. A demolição segue suspensa por decisões judiciais, e a área está protegida como ZEPEC – APC, o que obriga a manutenção de duas salas de cinema e espaço para café no futuro edifício. Enquanto isso, o prédio permanece trancado, com as salas à espera de retirada técnica de equipamentos.

Conclusão do Maumau

São Paulo conhece bem o enredo: quando a cultura fica em cartaz, o mercado tenta mudar o cenário. O caso Augusta/Fellini não é só sobre um prédio — é sobre qual cidade queremos ver nos créditos finais. Se a lei manda preservar o uso cultural, que se preserve com substância: salas que funcionem, acústica decente, pé-direito que respeite projetores, e um café que não vire lobby de condomínio. Caso contrário, corremos o risco de aplaudir de pé mais um “empreendimento com fachada ativa” enquanto a cidade, lá dentro, segue vazia. E, convenhamos, ninguém merece assistir a esse remake.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like