Palmas tem teatro e cinema parados e sem data definida para reabertura: ‘Necessidade urgente’, diz diretor

Blog do Maumau

Resumo do quadro

Dois dos principais palcos de formação e difusão cultural de Palmas — o Theatro Fernanda Montenegro e o Cine Cultura — seguem fechados ou sem programação e, pior, sem uma data oficial de retorno. Enquanto o teatro está em reforma há seis anos, o cinema não exibe filmes desde maio de 2025. Artistas relatam aumento de custos e esvaziamento da cena local, e a única casa em operação na capital é privada, já sobrecarregada. A Fundação Cultural de Palmas afirma que os projetos de modernização estão em andamento, mas ainda sem cronograma de reabertura.

O retrato do impasse

  • Theatro Fernanda Montenegro: fechado desde 2020, quando a pandemia interrompeu as atividades; as obras de reforma — motivadas por infiltrações e rachaduras internas — se arrastam desde então. Em 2023, a prefeitura assinou ordem de serviço, mas as intervenções não terminaram. Em imagens registradas em janeiro de 2025, veem-se cadeiras e carpetes retirados, fiações expostas e parte do teto desmontada.
  • Cine Cultura: referência para filmes nacionais e de perfil artístico, está sem programação desde maio de 2025. Passou por intervenção para resolver infiltrações e trocar condicionadores de ar, além de higienização de cadeiras e revestimentos laterais, mas ainda não tem data para voltar.

Impacto direto na cena local

Quem vive da arte sente o baque no bolso e no público. Kaká Nogueira, diretor do Grupo Cenaberta e presidente da Federação Tocantinense de Artes Cênicas, foi o responsável pelo último espetáculo aberto ao público no Theatro — a comédia Drácula, em março de 2020 — e resume o tamanho da lacuna: “Ter o Theatro Fernanda Montenegro fechado por seis anos é algo impensável para quem produz cultura em Palmas e no Tocantins (…) impede que grupos profissionais montem e apresentem espetáculos qualificados para o grande público.” Sem um palco público de porte, as produções migram para espaços improvisados (mais caros) e para o único teatro em funcionamento na capital, que é privado e já opera no limite.

O ator e diretor de cinema Nival Correia reforça o valor simbólico e formativo do Fernanda Montenegro: “Eu já vi plateias se emocionarem, se reconhecerem e se transformarem ali dentro. Esse contato direto com a arte é fundamental para a formação crítica e sensível de uma cidade, especialmente uma capital jovem como Palmas.” Diga-se: Palmas, fundada em 1990, é de fato uma das capitais mais jovens do país — e jovens capitais precisam de espaços de encontro tanto quanto de avenidas largas.

O que diz a Fundação Cultural

Segundo Luara Aquino, presidente da Fundação Cultural de Palmas, a Cineplast realizou análise técnica do Theatro e foi dada ordem de serviço para a elaboração dos projetos arquitetônicos de atualização do espaço. O diagnóstico é de que, pelo longo tempo fechado, diversos equipamentos se desgastaram e precisarão ser modernizados. Ainda não há previsão de reabertura.

No Cine Cultura, a Fundação afirma que, além das correções estruturais já feitas, estão previstos:

  • a compra de um novo projetor, estimado em cerca de R$ 500 mil, com recursos da prefeitura e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB);
  • um upgrade no sistema de som, que a gestão pretende viabilizar via PNAB;
  • a estreia de um aplicativo próprio para compra de ingressos e alimentos (já testado, mas ainda não lançado).

Traduzindo: o cinema deve voltar mais moderno. O problema é que “deve” não é data — e calendário vazio não forma público.

Por que isso importa (e muito)

  • Direito à cultura: a Constituição Federal assegura o acesso às fontes da cultura e impõe ao Estado fomentar a produção, difusão e circulação de bens culturais. Quando o principal teatro e o cinema público de uma capital ficam parados por tanto tempo, o que se interrompe não é só uma agenda de espetáculos; é um ciclo de formação, trabalho e memória cultural.
  • Ecossistema em risco: sem vitrines estáveis, grupos locais perdem fôlego, o público se dispersa e a cidade fica fora do circuito de atrações nacionais — um efeito dominó difícil (e caro) de reverter.

Contexto e histórico

O Theatro Fernanda Montenegro foi projetado nos anos 1990 e inaugurado em 30 de junho de 2000, com 530 lugares. Recebeu peças, concertos, dança e nomes centrais do teatro brasileiro — da própria Fernanda Montenegro a Paulo Autran e Bibi Ferreira — além de artistas tocantinenses como Bell Gama, Paulo Vieira, Kaká Nogueira, Juliano Gomes, Cícero Belém, Thiago Omena, Cleuda Milhomem e Cinthia Abreu. Fechado desde a pandemia, entrou no limbo das reformas longas — uma espécie de “Reforma: O Musical”, produção que segue em cartaz há seis temporadas sem estreia marcada.

Já o Cine Cultura se consolidou como curadoria alternativa aos grandes circuitos, programação essencial para quem quer ver cinema brasileiro e produções de linguagem mais autoral. Modernizar é bem-vindo — projetor novo, som melhor e app próprio soam como upgrade importante —, mas o coração de um cinema é a sala escura funcionando. A tecnologia tem que servir ao público, não à espera.

Opinião do Maumau

“Necessidade urgente” não é força de expressão — é diagnóstico. Seis anos para recuperar um teatro que é o farol das artes cênicas de Palmas é tempo demais, mesmo considerando a pandemia e entraves burocráticos. E um cinema sem filmes por quase um ano é contrassenso: é como anunciar app para vender pipoca… de uma sessão que não existe.

O que falta? Três coisas, na ordem:

  1. Cronograma público com marcos verificáveis — quando terminam os projetos, quando licita, quando começa obra, quando entrega. Transparência reduz ruído e aumenta a confiança.
  2. Plano emergencial de circulação — enquanto o Theatro não reabre, garantir edital de ocupação de espaços alternativos com apoio técnico, subvenção a salas parceiras (inclusive privadas) e agenda contínua. Ajuda a manter o público por perto.
  3. Retomada piloto do Cine Cultura — mesmo que com programação reduzida, sessões especiais e parcerias com mostras. Projetor novo é ótimo; mas, se a espera se alongar, viabilizar temporariamente projeções com equipamento alugado é uma solução pragmática.

Próximos passos

A Fundação Cultural diz que os projetos do Theatro estão em andamento e que o Cine Cultura caminha para modernização com apoio da PNAB. Sem datas, a ansiedade só cresce — do artista ao espectador. Resta à gestão publicar um plano claro e, sobretudo, cumpri-lo. Cultura é hábito: quando a cidade perde o costume de ir ao teatro e ao cinema, recuperá-lo custa mais caro do que qualquer projetor.

No Blog do Maumau, a gente segue na plateia — esperando o terceiro sinal. Que ele toque logo.

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