O Rio de Janeiro virou, de novo, a capital latino‑americana da tecnologia. De 8 a 11 de junho, o Web Summit Rio 2026 reúne mais de 34 mil pessoas na cidade — entre executivos de OpenAI, Google, Microsoft, Meta, Nvidia, IBM e Huawei; autoridades públicas; pesquisadores; criadores de conteúdo; e uma plateia que já não discute “se” a inteligência artificial vai mudar tudo, mas “como” e “quem manda no volante”. Minha leitura? A IA saiu da categoria “novidade brilhante” e estacionou no setor de infraestrutura crítica — com direito a disputa geopolítica e briga por talentos. E, como bom evento no Rio, faz isso de chinelo e com humor, porque ninguém é de ferro.
IA como infraestrutura: do hype à base do novo mercado
- Em 2026, a conversa sobre IA amadureceu. Os painéis tratam de computação em nuvem, chips, data centers, agentes autônomos, formação de profissionais e aplicações corporativas — o alicerce invisível que define quem terá competitividade nos próximos anos. Concordo com a premissa central: IA agora é tema de política industrial, não só de produto. Quem dominar infraestrutura, dados e gente qualificada define o placar.
- No front corporativo, a Nvidia promete detalhar iniciativas para acelerar a infraestrutura de IA no Brasil; a Microsoft Brasil anuncia investimentos e programas de capacitação; e o Google Brasil mira um ecossistema “sustentável” de longo prazo. Traduzindo: disputa por mercado, por parceiros e, sobretudo, por talentos. Meu pitaco: bonito ver cheque e slide, mas o jogo se ganha com formação massiva e previsibilidade regulatória.
Regulação, poder das plataformas e soberania tecnológica
- A agenda regulatória vem quente. O Secretário-Executivo do MCTI, Luís Fernandes, discute mudanças nas regras brasileiras para responsabilização de plataformas por conteúdos criminosos e seus impactos no futuro da internet. A pergunta de um milhão (ou de algumas multas bilionárias): como equilibrar liberdade de expressão, segurança e inovação sem criar pedágios que só os gigantes conseguem pagar? Minha visão: regras claras e exequíveis evitam o faroeste digital — e, de quebra, evitam sufocar quem está começando.
- Soberania tecnológica e concentração de poder também entram na roda. Não é só “quem tem o melhor modelo” — é quem controla dados, nuvem, chips e camadas de distribuição. Para o Brasil, parceria internacional precisa vir com contrapartida de desenvolvimento local e qualificação. Caso contrário, viramos apenas clientes premium.
Economia dos criadores: de hobby a indústria com CNPJ
- O tema creator economy ganha palco grande. A diretora-geral do YouTube para a América Latina fala de como criadores viram “novos estúdios” e reconfiguram o entretenimento. O diretor global de Criação da Meta, Moran, discute a era dos vídeos espontâneos e da IA ajudando da roteirização à edição. Fábio Porchat e Juliette entram no debate sobre monetização e relacionamento com o público. Minha opinião: acabou a era do “influencer por acaso” — hoje é operação, dados e propriedade intelectual. E quem dominar IA generativa para produção criativa levará vantagem competitiva.
- Entre os destaques, a participação do influenciador italiano Federico “Panda Boi” Hu, que soma mais de 60 milhões de inscritos e deve apostar na interação ao vivo. Se conteúdo é rei, distribuição é rainha — e algoritmo é o primeiro-ministro que, às vezes, derruba o gabinete.
Negócios, startups e capital: o matchmaking que paga o ingresso
- A organização estima 1,5 mil startups e mais de 600 investidores em busca de negócio. Esse sempre foi o DNA do Web Summit: colocar fundadores e capital no mesmo corredor. Minha aposta? Deep tech de IA aplicada (saúde, agro, finanças), cibersegurança e ferramentas para criadores devem ser os mais paquerados. O risco macro existe, mas o apetite por produtividade via IA mantém o caixa aberto para soluções com ROI mensurável.
Gente que move a conversa
- Bruno Lewicki, chefe de Políticas Públicas da OpenAI na América Latina, debate o equilíbrio entre inovação, responsabilidade e políticas públicas — um tripé que, quando manca, derruba a mesa inteira.
- A presidente da Microsoft Brasil e o presidente do Google Brasil apontam prioridades de investimento e formação de mão de obra — capítulos fundamentais se quisermos transformar anúncio em PIB.
- A presença de nomes fora do eixo tech puro, como Rebeca Andrade (a maior medalhista olímpica da história do Brasil), Lázaro Ramos, Jade Picon e Juliette, reforça a tese: tecnologia virou linguagem comum. E confesso: ver esporte de alto rendimento discutindo gestão de imagem e carreira no mesmo palco da IA é o tipo de crossover que faz sentido em 2026.
Contexto que vale ouro
- O Web Summit é uma conferência global criada em 2009, hoje sediada em Lisboa, com braços como a Collision (Toronto) e o próprio Web Summit Rio. O recado do capítulo carioca é direto: a edição brasileira se consolida como a principal conferência do setor na América Latina, segundo a organização — e, pelo tamanho e mix de público, o título não soa exagerado.
O que observar até quinta (11)
- Sinais concretos sobre expansão de data centers e acesso a chips no Brasil.
- Programas de qualificação em escala (parcerias com universidades e técnicos).
- Diretrizes regulatórias com previsibilidade — sem atalhos que protejam só quem já é gigante.
- Ferramentas de IA para criadores que saiam do “demo bonito” e mostrem ganho real de tempo/receita.
Fecho do Blog do Maumau
O Web Summit Rio 2026 mostra um setor que cresceu, colocou gravata e foi discutir infraestrutura, regulação e poder — mas não perdeu a criatividade. Na minha régua, é exatamente isso que o Brasil precisa: menos hype, mais entrega; menos pirotecnia, mais gente qualificada. Se a IA tivesse sotaque, esta semana ele seria carioca: direto, inventivo e com uma malemolência que, convenhamos, faz o futuro andar mais leve.