Orlando Senna, referência do Cinema Novo, morre aos 86 anos

Orlando Senna, referência do Cinema Novo, morre aos 86 anos

O cineasta, roteirista, escritor e gestor cultural baiano Orlando Senna morreu na tarde desta terça-feira, 9 de junho de 2026, aos 86 anos. A informação foi confirmada pela sobrinha do diretor, Indra Rocha, nas redes sociais. A causa da morte não foi divulgada. Nome central do Cinema Novo e uma cabeça pensante raríssima do nosso audiovisual, Senna deixa uma filmografia e uma atuação pública que ajudaram a moldar o cinema brasileiro — na tela e nos bastidores. Fez arte, brigou por política pública e, quando precisou, peitou a censura. Sim, esse combo é cada vez mais raro.

Iracema e o Brasil que o cinema revelou

  • Orlando Senna ganhou projeção nacional e internacional ao codirigir, ao lado de Jorge Bodanzky, o clássico “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1975), obra híbrida que mistura ficção e documentário para encarar a realidade amazônica durante a construção da Transamazônica. O filme foi censurado durante o regime militar — sinal infalível de que estava mirando certo.
  • Segundo registros da obra, “Iracema” foi exibido no exterior em 1975 e, já nos anos 1980, consagrado no Festival de Brasília, com prêmios como melhor filme e melhor atriz (Edna de Cássia). Em tempos em que o noticiário ambiental parece roteiro distópico, “Iracema” segue atual como GPS moral do país. E isso não é hipérbole: é constatação histórica amplamente documentada.

Da Chapada Diamantina para o mundo

  • Nascido em 1940 no distrito de Afrânio Peixoto, em Lençóis (Chapada Diamantina, BA), Senna começou no set como assistente de direção de Roberto Pires em “Tocaia no Asfalto” (1962). Ainda na Bahia, dirigiu curtas e atuou em teatro, ligado à Escola de Teatro da UFBA e ao CPC.
  • No fim dos anos 1960, mudou-se para o Rio e dirigiu seu primeiro longa, “A Construção da Morte” (1969). Na década de 1990, teve passagem decisiva por Cuba, como professor e diretor da Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños (EICTV). Não é pouca coisa: formar gente é tão autoral quanto assinar um filme — e Senna sabia disso.

Gestor público que entendia de set e de orçamento

  • Em 2003, assumiu a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Em 2007, dirigiu a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e participou da criação da TV Brasil, deixando o cargo em 2008. Antes, foi subsecretário do Audiovisual no governo de Benedita da Silva, no Rio.
  • Tradução do impacto: Senna foi um dos raros casos em que o crachá do governo e a claquete do set falavam a mesma língua. Enquanto muita gente faz discurso sobre democratização do acesso, ele ajudou a construir a infraestrutura para isso existir.

Parcerias, influências e um circuito de ideias

  • Ligado ao movimento do Cinema Novo, Senna conviveu e dialogou com figuras como Glauber Rocha, Ruy Guerra, Geraldo Sarno, Hector Babenco, Jorge Amado, Gabriel García Márquez e Chico Buarque. Não é name-dropping; é um mapa de referências que ajuda a entender a ambição estética e política de sua obra.
  • Como consultor e roteirista, esteve em projetos como “Glauber, o filme – Labirinto do Brasil” (2004), de Silvio Tendler, entre muitos outros. Ao longo de décadas, participou de mais de 30 produções — volume e densidade que explicam por que seu nome virou sinônimo de pensamento crítico no audiovisual.

Repercussão

  • Em nota, a Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) lamentou a morte e ressaltou o compromisso do cineasta com a democratização da cultura, a defesa do cinema nacional e a valorização das narrativas brasileiras — palavras que, no caso de Senna, não são frase feita: são descrição de ofício.
  • A confirmação da morte foi noticiada por veículos como g1, Estadão e UOL, reforçando a dimensão nacional da despedida.

Opinião do Maumau

Orlando Senna foi daqueles autores que não se contentaram em filmar o Brasil: quiseram reposicionar a câmera do país sobre si mesmo. Se o Cinema Novo era a “estética da fome”, Senna serviu prato feito e sobremesa — com apetite por política pública, escola de cinema e uma obra que resiste ao tempo e às modas. Numa era de ruído e bobagem viral, sua filmografia segue como antídoto: clara, direta e, sobretudo, necessária.

Encerramento

Sem causa divulgada e com a confirmação da família, a despedida de Orlando Senna é também um convite à revisão de sua obra e de seu legado institucional — do impacto de “Iracema” à criação da TV Brasil. O cinema brasileiro perde um realizador de primeiro time e um articulador raro. A boa notícia — e aqui vai um último traveling otimista — é que suas imagens e ideias continuam em cartaz. Que a nova geração aperte o REC.

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